Como é?
Perguntavam ao garoto.
Para ele era um misto de doce de abóbora da vó e steady as she goes do raconteurs
sempre dizia para mim mesmo que era a melhor coisa que Jack White fez desde Seven Nation Army
era como aquele gibi do Lanterna, com toda a qualidade de cores, como a tropa alpha sem o estrela polar
as vezes, um sabre de luz desligado. um sabre de luz laranja.
um pedaço da guia da calçada, cheio de chiclete velhos e pegadas de baratas
eram duas partidas de street fighter 2, com a chun li ou o guile. sem essa história de especiais.
eram beijos tão doces que fariam qualquer velhinha diabética desmaiar a um quarteirão de distância
eram piadas engraçadas como aquelas da Phoebe.
de noite, era como ver uma mensagem inesperada do celular
ou era como depois daquele jogo do basquete no colegial, que eu fiz duas cestas de 3
também tinha shang tsung.
as vezes era alto como um rochedo
como um dromedálio que escapou das asas do Roca e acometeou as areias do deserto
era como um daqueles contos incríveis do Bill Willingham.
não era um livro do foucalt mas era um nietszche nos cafés da manhã
como um cookie
já sei.
era suave e saboroso como um hot roll
era aquele primeiro grande livro do Fernando Sabino.
era um carro de vidros fechados e uma tentativa fútil de desatar o cinto
se esse garoto
esse aí, do doce de abóbora
andasse e desce voltas
ele teria uma camiseta roxa do King of All Cosmos e um moleton velho de capuz, uma jaquete de hell's angels
anéis. da tropa, de escorpião, do valknut
unhas assim, curtas, mas, meio pretas.
mão sem calos
braço finos e algumas cicatrizes
uns cabelos meio cacheados meio crespos meio cinzas
um par de olhos de multiverso
e um par de dimensões paralelas de ouvidos
e um diabo de palavras entre a nuca e o pescoço
não teria bigode, só uma barba rala.
porque a maquininha, é legal de passar no número 1.
e vestiria jeans
e um all star preto
e não teria moto ou carro
ou um lobo atroz de cela ou uma bicicleta
escolha simples
e um punhado de acessórios de fazer inventário de diablo ou WoW parecer brincadeira de jardim da infância
e uns livros na mochila
para escalar o conhecimento
e uns fones de ouvidos desligados
porque eu quero mesmo é ouvir o mundo.
como era, perguntaram ao garoto?
era muito alanis, um pouco de shakira e uns Skas que é um ritmo oprimido
o meio irmão do rock, só se deu bem por causa do sax.
era um violão bonito, que escolhi com carinho, num dia de sol na Teodoro.
era a feirinha da Benedito que nunca fui.
mas eram todos os tiros de nave de star wars.
todos.
com explosões e tudo.
eram todos os surrurros que vem do lugar aonde vão parar as tampas de caneta bic
tantos manos que parecia um baile funk na rocinha
era um despredimento.
como se fosse de fato normal separar o mar com as mãos
meus gibis da marvel, empoeirando aqui.
como era garoto?
era como um sonho que se vive.
mas, aí, acordei, meio zumbi. imbuído de meia vida.
Eu era um Solomon Grundy de pessoa. e minha Zatana. não esperava por mim no próximo quadro.
era como meus desenhos
que conversam comigo eternamente da gaveta
ou da minha cabeça
era como tomar uma com os deuses
sem jogar um pouquinho para eles.
o que eu deveria fazer? atirar o conteúdo da taça na face daquele que me abriga em seu coração?
era minha morada do alto
inspiração
era como saber de um segredo sem que ninguém ouvesse contado e, ainda assim, sem descobrir
como era?
perguntavam ao garoto
e ele então, abriu os olhos
questionou-se sobre a luz forte
enxergou um vulto de rostos e formas, e disse:
Já passou?
já.
alguém esteve aqui.
e fecharam a porta.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Ignição
Ritmo e velocidade
Nas longínquas tramas dançantes
Ou na rota quente do asfalto da cidade
Entre toneladas de concreto aquecido
Entre frios e penosos olhares
Naquela paisagem deslumbrante entra as montanhas
Nas trilhas, perdidas, exóticas, estranhas
Ou no meu emaranhado de vontades
Não sou desses fãs de motores
Mas, apóio de todo peito essa desventura de sabores
O amarelo de amor, o verde de esbravejar, o perseguir
Almejar, alcançar
Poucas, pouquíssimas pessoas partilham
Essa minha vontade de viver a vida
A gana de engolir os momentos em largas doses
Para não perder um segundo da maratona divina
Para bater a cabeça e aprender errando
E para me sufocar num mar de cabelos, suor ou pranto
Então, quando eu passo, tudo soa assim, silencioso
E desfocado
Como borrões no pára-brisa
Reflexos de um dia nublado
Viver num mar de cinza, num “gran pri” de curvas certas
Não importa a quantidade, tudo foge, seca.
Nada de óculos bacana de piloto
Como o Rei no calhambeque
Nada que me salte aos olhos
Que me instiga
Que me merece.
Fico, aqui pensando, se é um dom acelerado
Uma força centrípeta distorcida
Se é alguma cousa estranha
Ou puro olhar alienígena
Daria para criar toda uma ciência
Baseada em enxergar as coisas como vejo
Em discernir obstáculos na pista
Ou um macaco com bocejo
E por mais sentido que faça
E quando surge um rival no carro vermelho
Seja o corredor X ou fumaça
Apenas uma sombra no espelho
Meu ar todo se enche de graça
Os pedais se tornam meus dedos
E na largada a vida toda eu encalço
Perseguindo ser meu próprio meio.
Se chegar entre os três primeiros
Levar taça ou champanhe, não importa
Quero mesmo é ultrapassar o limite
Que separa o normal, e viver de anseios
Quero ser combustível para, acredite,
Ser a ignição no estalar dos dedos.
E aí, me tornarei, sem fim, o cometa harley dos novos tempos.
'só porque a lua estava magnífica, nesse exato momento, e vale, ao menos, minha oferenda de um punhado de sorrisos. Aos herdeiros da Terra, um maravilhoso sonhar.'
eu.ogami
Nas longínquas tramas dançantes
Ou na rota quente do asfalto da cidade
Entre toneladas de concreto aquecido
Entre frios e penosos olhares
Naquela paisagem deslumbrante entra as montanhas
Nas trilhas, perdidas, exóticas, estranhas
Ou no meu emaranhado de vontades
Não sou desses fãs de motores
Mas, apóio de todo peito essa desventura de sabores
O amarelo de amor, o verde de esbravejar, o perseguir
Almejar, alcançar
Poucas, pouquíssimas pessoas partilham
Essa minha vontade de viver a vida
A gana de engolir os momentos em largas doses
Para não perder um segundo da maratona divina
Para bater a cabeça e aprender errando
E para me sufocar num mar de cabelos, suor ou pranto
Então, quando eu passo, tudo soa assim, silencioso
E desfocado
Como borrões no pára-brisa
Reflexos de um dia nublado
Viver num mar de cinza, num “gran pri” de curvas certas
Não importa a quantidade, tudo foge, seca.
Nada de óculos bacana de piloto
Como o Rei no calhambeque
Nada que me salte aos olhos
Que me instiga
Que me merece.
Fico, aqui pensando, se é um dom acelerado
Uma força centrípeta distorcida
Se é alguma cousa estranha
Ou puro olhar alienígena
Daria para criar toda uma ciência
Baseada em enxergar as coisas como vejo
Em discernir obstáculos na pista
Ou um macaco com bocejo
E por mais sentido que faça
E quando surge um rival no carro vermelho
Seja o corredor X ou fumaça
Apenas uma sombra no espelho
Meu ar todo se enche de graça
Os pedais se tornam meus dedos
E na largada a vida toda eu encalço
Perseguindo ser meu próprio meio.
Se chegar entre os três primeiros
Levar taça ou champanhe, não importa
Quero mesmo é ultrapassar o limite
Que separa o normal, e viver de anseios
Quero ser combustível para, acredite,
Ser a ignição no estalar dos dedos.
E aí, me tornarei, sem fim, o cometa harley dos novos tempos.
'só porque a lua estava magnífica, nesse exato momento, e vale, ao menos, minha oferenda de um punhado de sorrisos. Aos herdeiros da Terra, um maravilhoso sonhar.'
eu.ogami
terça-feira, 9 de junho de 2009
Retina Parallax
Passa o tempo
tic tac
piui piuí
trec trec trec trec
fruoom..fruooomm...
e a vida da gente vai tomando forma
separa ingredientes
mistura
amassa, com carinho, se possível
aguarda
e vai crescendo
invariavelmente, esquenta, ferve
seca
no fim
é tudo crunch crunch cronch.
alguns, mais nhami nhami
outros, hmm nananaam.
Eu partilho cada segundo com uma multidão
pensamentos
idéias
vontades
sentimentos
se não fosse algo abstrato
seria muita gente para pouco espaço
mas, tudo é tão lúdico e verdadeiro como queremos que seja
tão ilusório ou real quanto nosso umbervision interno permite
como a vida é boa, não é?
se você acha ruim, te aconselharia a imaginar que é, no mínimo, interessante
mesmo que, para você, nesse momentinho aí, não seja.
dialogar é tão fácil quanto abrir os olhos
escrever é tão simples quanto estender a mão
mas numa multidão de sonâmbulos e insônes
de relógios, cucos, marca-passos, e passatempos
quem consegue enxergar?
sentar, em cima do vagão
deixando o vento bater nos cabelos
e as linhas de alta tensão estalando por sobre a cabeça
ver os campos não tão verdejantes
e as cidades não tão esplendorosas
um, narigudão
outro, antipático
o velho, carrancudo
o outro, sorrisão
um, fone de ouvido
outro, fone no ouvido
um, só suspiro
alguns, só latido
muitos, só rotina
os cansados, já vão dormindo
se poesia não fosse algo tão abstrato
como aquelas coisas que listei lá em cima
diria que você está quase me entendendo
processo
criação
e proliferação, são ações naturais
expontâneas ou provocadas
refletir
escutar
descobrir
se encantar
sao ações simples
normais
porém, titânicas
explicar,
entender,
desvendar,
gargalhar e se encantar
são presentes magníficos
de uma realidade tão grande
quanto pode caber nas palavras
tic tac
piui piuí
trec trec trec trec
fruoom..fruooomm...
e a vida da gente vai tomando forma
separa ingredientes
mistura
amassa, com carinho, se possível
aguarda
e vai crescendo
invariavelmente, esquenta, ferve
seca
no fim
é tudo crunch crunch cronch.
alguns, mais nhami nhami
outros, hmm nananaam.
Eu partilho cada segundo com uma multidão
pensamentos
idéias
vontades
sentimentos
se não fosse algo abstrato
seria muita gente para pouco espaço
mas, tudo é tão lúdico e verdadeiro como queremos que seja
tão ilusório ou real quanto nosso umbervision interno permite
como a vida é boa, não é?
se você acha ruim, te aconselharia a imaginar que é, no mínimo, interessante
mesmo que, para você, nesse momentinho aí, não seja.
dialogar é tão fácil quanto abrir os olhos
escrever é tão simples quanto estender a mão
mas numa multidão de sonâmbulos e insônes
de relógios, cucos, marca-passos, e passatempos
quem consegue enxergar?
sentar, em cima do vagão
deixando o vento bater nos cabelos
e as linhas de alta tensão estalando por sobre a cabeça
ver os campos não tão verdejantes
e as cidades não tão esplendorosas
um, narigudão
outro, antipático
o velho, carrancudo
o outro, sorrisão
um, fone de ouvido
outro, fone no ouvido
um, só suspiro
alguns, só latido
muitos, só rotina
os cansados, já vão dormindo
se poesia não fosse algo tão abstrato
como aquelas coisas que listei lá em cima
diria que você está quase me entendendo
processo
criação
e proliferação, são ações naturais
expontâneas ou provocadas
refletir
escutar
descobrir
se encantar
sao ações simples
normais
porém, titânicas
explicar,
entender,
desvendar,
gargalhar e se encantar
são presentes magníficos
de uma realidade tão grande
quanto pode caber nas palavras
quarta-feira, 29 de abril de 2009
We are all wolves
Lembro-me da primeira vez que nos conhecemos, aquela alcova escura e suja, lar de ratos, de todos piratas expatriados e assassinos do lado oeste do Tamisa. Depois de muito sangue derramado, formando novas poças sobre o negrume do sangue seco e velho das madeiras do assoalho, você se aproximou da minha mesa. Teria atacado antes da luz das tochas iluminarem seu rosto, se não caminhasse a sua frente aquele nosso amigo, do qual você sempre reclama. Continuei a mastigar, enquanto limpava o sangue da cimitarra, e perguntei despreocupado: Vai um cookie, dona?
Simples assim. Daquele biscoito em diante muitas desventuras cruzariam nosso caminho, tantos balanços, suaves e fortes, tempestades e calmarias, que, imagino eu, as pessoas comuns não devem passar. Mas, pra ser bem sincero, eu não sei, nunca fui exatamente uma pessoa comum.
Eis, que chega o derradeiro momento. Hora ou outra, me perguntava aonde tua impaciência iria conduzir-nos. Não que impaciência não seja uma coisa boa, ou ruim, é apenas um sentimento, que todos sentimos em algum momento da vida. Torna-se um problema apenas quando ela nubla nossas visões dos fatos, como a forte neblina das florestas da Estônia.
De fato, muitas coisas me passam pela cabeça agora. Arrependimento, ou culpa, não é uma delas. Com certeza, não da minha parte. Mas, não tenho presunção de imaginar como sua mente se comportará daqui em diante, apenas sou curioso quanto as atitudes humanas. Sempre fui assim, isso que me faz ser quem eu sou. Aliado ao meu comportamento, nem sempre torna-se uma coisa boa, como a impaciência, porém, como diz o francês: É o que temos pra hoje...
Os anos no mar, capitã, me deram muito mais experiência do que apenas saques e pilhagens. E as feridas, muito mais honrarias que os espólios. Quando era pequeno, treinava os olhos para caçar, afinal, sobrevivência dependia de comida, e um filhote de lince ou um coelho gordo eram comida pra semana inteira. Depois de anos, quando nossos olhos já estão treinados para enxergar o movimento, as reações e os resultados, passamos a vislumbrar as coisas de modo diferente. E eu passei tempo demais caçando para deixar de enxergar assim. A vida é simples e não conta com grandes mistérios ocultos, o mundo é daqueles que sabem enxergá-lo.
Contemplação é papo para monges e estudiosos, não para nós, que levamos essa vida. Não para quem tem o vento salgado do oceano, chacoalhando a nau dos pensamentos. Nós nem mesmo conseguimos ficar parados no mesmo lugar, o balanço sempre existe, o eterno ir e vir. A calmaria, o estático, sempre foi a maior aflição de qualquer mandrião que conheço, até mesmo dos grandes, como Jennet ou Drake.
Muitas palavras para tentar explicar aos seus muitos pensamentos uma coisa, como disse acima, relativamente simples: estou desertando, capitã.
Quando vislumbrar essas linhas, muito provavelmente já estarei tão longe do navio, quanto o garoto Galága de um banho de água doce.
Não me preocuparei com as explicações, nem com os porquês. As ações falam tanto quanto esses hieróglifos, rabiscados num diário velho. Como de praxe, levo tudo que me é de direito, espero que não se importe.
Não encontrará o baú com prata sob a soleira da cama, as conversas sobre o vento da popa ou as histórias inacabadas, das noites de lua cheia, que tanto fazíamos questão de contar, para o turno passar mais depressa. Vigília, nunca foi meu forte, afinal.
Espero que sua arrogância não encontre na minha objeção. Livreza de espírito, sempre norteou a bússola matriz desse velho lobo do mar, jamais o deixaria de fazer agora.
Onde, quando e se nos encontraremos novamente, não posso te afirmar com toda certeza. Talvez no próximo aporte saqueador, ou naquela caravela da frota inglesa, nas mesas de jogo de Reykjavík ou na velha cabana no ducado de Liechtenstein.
Afinal, você bem sabe: uma vez caminhante, nenhum pouso jamais domará teu semblante.
No final das contas, somos todos lobos.
Will W.
PS: Não quito dívidas, mas também não mantenho laços. Para todos barris que beber daqui pra frente, lembra sempre daquelas duas canecas que me deve. E quando o tilintar lhe pesar a mente, dá os rincões ao primeiro pedinte que vês e considerarei a dívida paga. Assim, quem sabe, os próximos barris terão pra ti, gostos melhores ou sabor mais leve... Adeus
Simples assim. Daquele biscoito em diante muitas desventuras cruzariam nosso caminho, tantos balanços, suaves e fortes, tempestades e calmarias, que, imagino eu, as pessoas comuns não devem passar. Mas, pra ser bem sincero, eu não sei, nunca fui exatamente uma pessoa comum.
Eis, que chega o derradeiro momento. Hora ou outra, me perguntava aonde tua impaciência iria conduzir-nos. Não que impaciência não seja uma coisa boa, ou ruim, é apenas um sentimento, que todos sentimos em algum momento da vida. Torna-se um problema apenas quando ela nubla nossas visões dos fatos, como a forte neblina das florestas da Estônia.
De fato, muitas coisas me passam pela cabeça agora. Arrependimento, ou culpa, não é uma delas. Com certeza, não da minha parte. Mas, não tenho presunção de imaginar como sua mente se comportará daqui em diante, apenas sou curioso quanto as atitudes humanas. Sempre fui assim, isso que me faz ser quem eu sou. Aliado ao meu comportamento, nem sempre torna-se uma coisa boa, como a impaciência, porém, como diz o francês: É o que temos pra hoje...
Os anos no mar, capitã, me deram muito mais experiência do que apenas saques e pilhagens. E as feridas, muito mais honrarias que os espólios. Quando era pequeno, treinava os olhos para caçar, afinal, sobrevivência dependia de comida, e um filhote de lince ou um coelho gordo eram comida pra semana inteira. Depois de anos, quando nossos olhos já estão treinados para enxergar o movimento, as reações e os resultados, passamos a vislumbrar as coisas de modo diferente. E eu passei tempo demais caçando para deixar de enxergar assim. A vida é simples e não conta com grandes mistérios ocultos, o mundo é daqueles que sabem enxergá-lo.
Contemplação é papo para monges e estudiosos, não para nós, que levamos essa vida. Não para quem tem o vento salgado do oceano, chacoalhando a nau dos pensamentos. Nós nem mesmo conseguimos ficar parados no mesmo lugar, o balanço sempre existe, o eterno ir e vir. A calmaria, o estático, sempre foi a maior aflição de qualquer mandrião que conheço, até mesmo dos grandes, como Jennet ou Drake.
Muitas palavras para tentar explicar aos seus muitos pensamentos uma coisa, como disse acima, relativamente simples: estou desertando, capitã.
Quando vislumbrar essas linhas, muito provavelmente já estarei tão longe do navio, quanto o garoto Galága de um banho de água doce.
Não me preocuparei com as explicações, nem com os porquês. As ações falam tanto quanto esses hieróglifos, rabiscados num diário velho. Como de praxe, levo tudo que me é de direito, espero que não se importe.
Não encontrará o baú com prata sob a soleira da cama, as conversas sobre o vento da popa ou as histórias inacabadas, das noites de lua cheia, que tanto fazíamos questão de contar, para o turno passar mais depressa. Vigília, nunca foi meu forte, afinal.
Espero que sua arrogância não encontre na minha objeção. Livreza de espírito, sempre norteou a bússola matriz desse velho lobo do mar, jamais o deixaria de fazer agora.
Onde, quando e se nos encontraremos novamente, não posso te afirmar com toda certeza. Talvez no próximo aporte saqueador, ou naquela caravela da frota inglesa, nas mesas de jogo de Reykjavík ou na velha cabana no ducado de Liechtenstein.
Afinal, você bem sabe: uma vez caminhante, nenhum pouso jamais domará teu semblante.
No final das contas, somos todos lobos.
Will W.
PS: Não quito dívidas, mas também não mantenho laços. Para todos barris que beber daqui pra frente, lembra sempre daquelas duas canecas que me deve. E quando o tilintar lhe pesar a mente, dá os rincões ao primeiro pedinte que vês e considerarei a dívida paga. Assim, quem sabe, os próximos barris terão pra ti, gostos melhores ou sabor mais leve... Adeus
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Esfinge Bahamut
como um sátiro de lira
levante que afirma
flámula que instiga
a honrar o saldo
ao saudar a vida
interando o canto
sem débitos
me fita
na altura certa
do metro
no comprimento reto
és linda.
escreve
palavreia
cria
querer
transmutar
bem vinda
são índios
nosso destino
são anjos
- com um só tiro, delira?
- levantou essa firma!
- Flá, a mulher que o diga!
como um sátiro de lira
levante que afirma
flámula que instiga
- com um só, tiro de linha
- Pela honra do Saulo!
a saldar a dívida
- internato!? quando?
Sim, é tú!
- Me filma?
- Não é tu, na certa...
na altura certa
como um sátiro de lira
com um só tiro, delira...
do metodo
dá me tudo.
- Levantou essa firma!
levante que afirma
adianta, acima, arriba
- Tem um cumprimento certo?
- Tem um cumprimento, certo?
- Não compro, vendo reto..
és linda.
languida.
és li, nda.
- É, li, nda.
escreve.
palavreia.
fonática.
gramática.
Você, sabe o que é um parser?
gosta de banana split?
- gosta de banana split?
- gosta de, de... de, banana split?
- banana split!?
banada, split.
split.
...
split.
isplitte
is pli te
is plite
is plet
is plentiful
is plite
isplite
sprite
drink?
- I've seen the sprite dancing...
- And a satyr with a lyre
And I saw Tyr with a lier?
?
!
pelegrinaje miracolousité - ladin
...
cria
quer
transmuta
bem
vida
son hijos
our destiny
son anjos
YAHVEH
ADONAI
YHVH ADNI
Kabbalah
?!
acaba lá
a cabala
acaba-lá!
start sefirah sefer
2,3,10 - Malchut
chochmahbinahmalchut
shivabrahma
creative
cria.
repito pra você
gitã
gitano
domain
domínio
rom
romano?
-não.
repito pra você
como um sátiro de lira
com um só tiro, delira
a satyr with a lyre
I saw Tyr with a lier?
como um sátiro de lira
levante que afirma
flámula que instiga
a honrar o saldo
ao saudar a vida
interando o canto
sem débitos
me fita
na altura certa
do metro
no comprimento reto
és linda.
escreve
palavreia
cria
querer
transmutar
bem vinda
são índios
nosso destino
eu.ogami.
levante que afirma
flámula que instiga
a honrar o saldo
ao saudar a vida
interando o canto
sem débitos
me fita
na altura certa
do metro
no comprimento reto
és linda.
escreve
palavreia
cria
querer
transmutar
bem vinda
são índios
nosso destino
são anjos
- com um só tiro, delira?
- levantou essa firma!
- Flá, a mulher que o diga!
como um sátiro de lira
levante que afirma
flámula que instiga
- com um só, tiro de linha
- Pela honra do Saulo!
a saldar a dívida
- internato!? quando?
Sim, é tú!
- Me filma?
- Não é tu, na certa...
na altura certa
como um sátiro de lira
com um só tiro, delira...
do metodo
dá me tudo.
- Levantou essa firma!
levante que afirma
adianta, acima, arriba
- Tem um cumprimento certo?
- Tem um cumprimento, certo?
- Não compro, vendo reto..
és linda.
languida.
és li, nda.
- É, li, nda.
escreve.
palavreia.
fonática.
gramática.
Você, sabe o que é um parser?
gosta de banana split?
- gosta de banana split?
- gosta de, de... de, banana split?
- banana split!?
banada, split.
split.
...
split.
isplitte
is pli te
is plite
is plet
is plentiful
is plite
isplite
sprite
drink?
- I've seen the sprite dancing...
- And a satyr with a lyre
And I saw Tyr with a lier?
?
!
pelegrinaje miracolousité - ladin
...
cria
quer
transmuta
bem
vida
son hijos
our destiny
son anjos
YAHVEH
ADONAI
YHVH ADNI
Kabbalah
?!
acaba lá
a cabala
acaba-lá!
start sefirah sefer
2,3,10 - Malchut
chochmahbinahmalchut
shivabrahma
creative
cria.
repito pra você
gitã
gitano
domain
domínio
rom
romano?
-não.
repito pra você
como um sátiro de lira
com um só tiro, delira
a satyr with a lyre
I saw Tyr with a lier?
como um sátiro de lira
levante que afirma
flámula que instiga
a honrar o saldo
ao saudar a vida
interando o canto
sem débitos
me fita
na altura certa
do metro
no comprimento reto
és linda.
escreve
palavreia
cria
querer
transmutar
bem vinda
são índios
nosso destino
eu.ogami.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Smarkatch
Sibila, suavemente
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o intenso brilho do sol
E os alados, que outrora gorjeavam
Depressa procuram um abrigo
De plumas negras, amedrontados
Poucos ouvem o tilintar
Agudo, faiscante, ríspido, contrário
Os cabelos longos, enevoados
Lança-se ao céu, num pulo enorme
Risca as nuvens com velocidade
Precipitado
Observa do alto, por toda a parte
Um olhar, fascinado
Digno daquele que elevou-se as alturas
Num ato juvenil, impensado
A queda, livre, leve tornado
Acariciando seu rosto com um sopro gelado
Cada vez mais próximo, já sente o cheiro do mato
Os alados, assustam-se
Fogem, voam, longe, estalados
Estalidos, barulhos, de galhos, folhas, roçados
Adentra as copas das árvores
Como um objeta lançado
Plaina, pluma, no seu belo bailado
Sibila, suavemente
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o brilho do sol
Alveja, com seu olhar feérico
As linhas tênues que distinguem a verdade do embuste
Parte, em investida rompante, deixando para trás
Apenas poeira, chacoalhantes pedras e uma nuvem de folhas secas
Cortando o vento numa implacável corrida
Pula por entre as raízes e pedras
Escorrega pelos baixios e lança-se por entre espaço diminutos
Gira sob si mesmo, em movimentos acrobáticos
Dignos de nota, se notas fossem
Tamanho ímpeto
Tamanha pressa,
Ai, pressa sem tamanho
Valentia forjada sob seus cabelos enuviados
Carrega na cintura, fatia de metal, afiada,
Pequenos dentes de mordida gelada
Pra mastigar o caminho
Dos nomes, não, não
Rosto angular, face cândida, pele suave de tez alaranjada por sobre as orelhas
Um pedaço de madeira, de formato retangular, amarrado sob o fronte com um faixa de tecido azul.
Sob ele, apenas seus longos, alvos, cabelos cor de lua cheia, enevoados, cor de chuva das montanhas, que dançam, dançam sob o vento cortante.
Segue, caminhador, corredor, percorredor
Dosa os segundos em suas passados
Onde um movimento é meio
E outro passo, aproxima-se do nada
Do quase zero, do espaço perfeito
Tão, tão rápido perambula, caminhante
Nem enxergo seus efeitos
Apenas essa névoa dançante
O choro de suas madeixas cor de chuva de outono.
O receptáculo, era o contrário
Negrume e laviado, vermelho, vinho, negro
Seu pisar era pesado
Trôpego, forte, impacto, negado
O chão recusava-se a ser por ele tocado
Vá-de!Vá-de!
Receptáculo contrário
Olhos cor de mármore, língua ferruginosa
Cabelos, a própria poeira do cosmo.
O escuro do interior do cometa
Congelante, faiscante negatividade
Lágrimas de dor da própria dor, a pureza
Encontro decisivo
Riscam-se como rochas afiadas
Zuncados, zunidos, laminadas
Corre, lança-se ao céus
Como uma serpente indomada
Sibila, suavemente
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o intenso brilho do sol
“Quando ia a Smarkatch, e via aquele brilho, reluzente, e o bazar do fabuloso. E me perguntava sobre a beleza, daquele, o de cabelos cor de nuvem, me via dizendo: só sei que esse lugar, de caravanas entre éons, é o começo do mundo, ele ou ela, essa neblina que vai, um passo profundo...” - Jeremias Furta-flores, no Diário do Lendário.
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o intenso brilho do sol
E os alados, que outrora gorjeavam
Depressa procuram um abrigo
De plumas negras, amedrontados
Poucos ouvem o tilintar
Agudo, faiscante, ríspido, contrário
Os cabelos longos, enevoados
Lança-se ao céu, num pulo enorme
Risca as nuvens com velocidade
Precipitado
Observa do alto, por toda a parte
Um olhar, fascinado
Digno daquele que elevou-se as alturas
Num ato juvenil, impensado
A queda, livre, leve tornado
Acariciando seu rosto com um sopro gelado
Cada vez mais próximo, já sente o cheiro do mato
Os alados, assustam-se
Fogem, voam, longe, estalados
Estalidos, barulhos, de galhos, folhas, roçados
Adentra as copas das árvores
Como um objeta lançado
Plaina, pluma, no seu belo bailado
Sibila, suavemente
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o brilho do sol
Alveja, com seu olhar feérico
As linhas tênues que distinguem a verdade do embuste
Parte, em investida rompante, deixando para trás
Apenas poeira, chacoalhantes pedras e uma nuvem de folhas secas
Cortando o vento numa implacável corrida
Pula por entre as raízes e pedras
Escorrega pelos baixios e lança-se por entre espaço diminutos
Gira sob si mesmo, em movimentos acrobáticos
Dignos de nota, se notas fossem
Tamanho ímpeto
Tamanha pressa,
Ai, pressa sem tamanho
Valentia forjada sob seus cabelos enuviados
Carrega na cintura, fatia de metal, afiada,
Pequenos dentes de mordida gelada
Pra mastigar o caminho
Dos nomes, não, não
Rosto angular, face cândida, pele suave de tez alaranjada por sobre as orelhas
Um pedaço de madeira, de formato retangular, amarrado sob o fronte com um faixa de tecido azul.
Sob ele, apenas seus longos, alvos, cabelos cor de lua cheia, enevoados, cor de chuva das montanhas, que dançam, dançam sob o vento cortante.
Segue, caminhador, corredor, percorredor
Dosa os segundos em suas passados
Onde um movimento é meio
E outro passo, aproxima-se do nada
Do quase zero, do espaço perfeito
Tão, tão rápido perambula, caminhante
Nem enxergo seus efeitos
Apenas essa névoa dançante
O choro de suas madeixas cor de chuva de outono.
O receptáculo, era o contrário
Negrume e laviado, vermelho, vinho, negro
Seu pisar era pesado
Trôpego, forte, impacto, negado
O chão recusava-se a ser por ele tocado
Vá-de!Vá-de!
Receptáculo contrário
Olhos cor de mármore, língua ferruginosa
Cabelos, a própria poeira do cosmo.
O escuro do interior do cometa
Congelante, faiscante negatividade
Lágrimas de dor da própria dor, a pureza
Encontro decisivo
Riscam-se como rochas afiadas
Zuncados, zunidos, laminadas
Corre, lança-se ao céus
Como uma serpente indomada
Sibila, suavemente
Enquanto sobe as encostas
Dormentes, sedutoramente expostas
Sob o intenso brilho do sol
“Quando ia a Smarkatch, e via aquele brilho, reluzente, e o bazar do fabuloso. E me perguntava sobre a beleza, daquele, o de cabelos cor de nuvem, me via dizendo: só sei que esse lugar, de caravanas entre éons, é o começo do mundo, ele ou ela, essa neblina que vai, um passo profundo...” - Jeremias Furta-flores, no Diário do Lendário.
terça-feira, 17 de março de 2009
Rust in peace
He was rambling and roaming for three days. The hungry now was even greater than when he flee the army. Old goat meat, given to him by that old witch in Thomas Wood, was the last thing to touch his stomach for, at least, eight days. As he father always said, “these god damn roots would never feed a grown up man”. Right he was. But, after all, after all suffering and lamentations, he had the first blow of a good thought appearing his mind, after all this days of walking, that sweet potato soap of Sally Mc Lean.
Dear Sally,
A Guerra apenas causa dor aos homens. A todos os homens Sally. E como sabe, nunca fui exceção.
Esta, provavelmente, é a última carta que lhe escrevo. Pois, Sally, não existem cartas que consolem o coração de um homem da guerra Sally. Realmente não há.
Ouvi que bandos de homens do exército já começaram a invadir as fazendas e propriedades vizinhas as rotas de suprimento das trincheiras de Jugh Town. Estão todos famintos, a dias não comem um pedaço de pão ou tomam um gole de leite.
Estou de partida, querida. Não há um outro lugar que esta vida me levará, a não ser a morte, e mais morto do que estou, não quero ficar. Rogo a Deus, que, antes do fim, possa encontrá-la.
Parto hoje daqui, espero que, quando essa carta chegar as suas mãos, eu esteja mais próximo de encontrá-la do que jamais estive nos últimos 2 anos.
Com amor,
Janota, já mostrava sinais de fraqueza. Sem energia para caçar, eu o via definhar. Mais do que eu talvez. Embora, me fizesse companhia, todo esse tempo, acho que, fui eu, mais instrumento da sua ardilosa esperteza canina, que ele, da minha aventurice humana. Não importa, sei que, mesmo cansado, o velho Janota se recuperará rápido, tão breve consiga algo decente para comer. Maior que um pardal comido pelos vermes ou os ossos quebradiços de um esquilo.
Pelo menos, ele não se preocupa com o frio. Que já está a me doer os ossos. Não me visto. Me enrolo em trapos, trapos tão sujos que, se lavados fossem, se desfariam, imagino que, apenas a sujeira, mantenha esses fios presos uns aos outros.
De noite, quando a neve se fazia sentir no suave toque sob minha barba e na pelagem do velho Janota, avistei uma casadela. Um galhinheiro, com umas três galinhas, a madeira molhada estalando ao vento, e a fumaça da lareira a esvaziar-se no seu.
Bati a porta:
- Um prato de comida a um velho soldado.
- Um prato de comida a um morto de fome.
Nada.
Virei as costas, dei alguns passos, perto da cerca a porta se abriu. Se Deus permitir que você não faça nenhum mal, que ele permita que você entre. Subi os degraus.
Avistei essa jovem mulher, de cabelos negros ondulados, com um vestido verde, gola alta, olhos profundos.
Tenho um pouco de sopa, disse ela. Aceitei de bom grado. Sentei com Janota perto da lareira, um caixote velho me serviu de apoio e ela sentou-se, desconfiada, numa velha cadeira.
Perguntou meu nome. Disse que se chamava Paula.
A guerra lhe tirou tudo. Consumiu seu marido em suas trincheiras. Dois filhos, mortos. O mais novo, que havia ficado em casa, tentou defender seu último porco de um ataque de urso. Morreu uma semana após os ferimentos. Eles batem como uma marreta, esses animais. Ela não o culpa. Devia apenas estar faminto, como eles. Sem ter esperanças de ver sua família reconstruída, hoje, sobrava comida.
Embora fosse jovem, o sofrimento lhe acariciou com muitas marcas sobre a pele e, com uma saúde, já débil e fragilizada. Mas, eu podia enxergar por detrás das olheiras profundas, daqueles cílios claros, a mulher forte que já havia morado ali. Recolhida na sua cadeira, em algum lugar.
Ela se retirou para o quarto. Fiquei com Janota, de frente ao fogo. Algum tempo depois, me ofereceu algumas roupas, que foram de seu marido. Agora, sem utilidade, a não ser trazer lembranças dolorosas. Por sorte minha, serviram. Ganhei um casaco, um par de calças, boas botas e um chapéu. Graças a Deus. Joguei meus trapos no fogo, dei graças e tentei, também, queimar as memórias dolorosas do passado.
I was dreaming about the beatiful yellow glow of Sally’s hair.
I heard the door craking. Janote, lifting up the ears. I saw that feminine figure, dressed up in a long white sleep cloak.
Could you, would you, please, come with me. I stand up. Follow her to the bedroom.
She lay down on the bed. She had tears in the eyes. Could you, would you, please, lie down here, and please, don’t go any further, just, just, stand by my side.
Achei aquilo confuso. Ela pediu novamente. Por favor.Tirei o casaco. Deitei.
Janota me olhava desconfiado, mas logo deitou sob o pé da cama e lá ficou.
Depois de alguns segundos, Paula começou a chorar.
Soluçava. Entre soluços e um som de grande agonia, agarrou minha mão.
Pediu desculpas. Pediu que eu ficasse ali. Pediu por favor.
Aquela mulher, aquela fortaleza, aquele ser humano.
Chorando de frente a um desconhecido, fedido e maltrapilho como eu.
O abrigando em sua cama, em seu íntimo.
Apenas para se sentir segura. Se sentir amada. Viva.
Eu permaneci parado. Eu a abracei. E cantei a velha canção que a bruxa, em Thomas Wood, havia cantado para mim.
Oh I’m going
Oh I’m going
My dear
Soon my home will be near me
And by the falls and grace of the Lord
Soon I’ll be home, just after the storm
Even if the mountains grown up
Even if the valley stay down
Foot after foot, day after night
Oh I’m going
My dear
To home
My dear
Until the leaves fall
Until the leaves fall
A Guerra Sally, eu pensei, é a cólera de todos os homens.
Dear Sally,
A Guerra apenas causa dor aos homens. A todos os homens Sally. E como sabe, nunca fui exceção.
Esta, provavelmente, é a última carta que lhe escrevo. Pois, Sally, não existem cartas que consolem o coração de um homem da guerra Sally. Realmente não há.
Ouvi que bandos de homens do exército já começaram a invadir as fazendas e propriedades vizinhas as rotas de suprimento das trincheiras de Jugh Town. Estão todos famintos, a dias não comem um pedaço de pão ou tomam um gole de leite.
Estou de partida, querida. Não há um outro lugar que esta vida me levará, a não ser a morte, e mais morto do que estou, não quero ficar. Rogo a Deus, que, antes do fim, possa encontrá-la.
Parto hoje daqui, espero que, quando essa carta chegar as suas mãos, eu esteja mais próximo de encontrá-la do que jamais estive nos últimos 2 anos.
Com amor,
Janota, já mostrava sinais de fraqueza. Sem energia para caçar, eu o via definhar. Mais do que eu talvez. Embora, me fizesse companhia, todo esse tempo, acho que, fui eu, mais instrumento da sua ardilosa esperteza canina, que ele, da minha aventurice humana. Não importa, sei que, mesmo cansado, o velho Janota se recuperará rápido, tão breve consiga algo decente para comer. Maior que um pardal comido pelos vermes ou os ossos quebradiços de um esquilo.
Pelo menos, ele não se preocupa com o frio. Que já está a me doer os ossos. Não me visto. Me enrolo em trapos, trapos tão sujos que, se lavados fossem, se desfariam, imagino que, apenas a sujeira, mantenha esses fios presos uns aos outros.
De noite, quando a neve se fazia sentir no suave toque sob minha barba e na pelagem do velho Janota, avistei uma casadela. Um galhinheiro, com umas três galinhas, a madeira molhada estalando ao vento, e a fumaça da lareira a esvaziar-se no seu.
Bati a porta:
- Um prato de comida a um velho soldado.
- Um prato de comida a um morto de fome.
Nada.
Virei as costas, dei alguns passos, perto da cerca a porta se abriu. Se Deus permitir que você não faça nenhum mal, que ele permita que você entre. Subi os degraus.
Avistei essa jovem mulher, de cabelos negros ondulados, com um vestido verde, gola alta, olhos profundos.
Tenho um pouco de sopa, disse ela. Aceitei de bom grado. Sentei com Janota perto da lareira, um caixote velho me serviu de apoio e ela sentou-se, desconfiada, numa velha cadeira.
Perguntou meu nome. Disse que se chamava Paula.
A guerra lhe tirou tudo. Consumiu seu marido em suas trincheiras. Dois filhos, mortos. O mais novo, que havia ficado em casa, tentou defender seu último porco de um ataque de urso. Morreu uma semana após os ferimentos. Eles batem como uma marreta, esses animais. Ela não o culpa. Devia apenas estar faminto, como eles. Sem ter esperanças de ver sua família reconstruída, hoje, sobrava comida.
Embora fosse jovem, o sofrimento lhe acariciou com muitas marcas sobre a pele e, com uma saúde, já débil e fragilizada. Mas, eu podia enxergar por detrás das olheiras profundas, daqueles cílios claros, a mulher forte que já havia morado ali. Recolhida na sua cadeira, em algum lugar.
Ela se retirou para o quarto. Fiquei com Janota, de frente ao fogo. Algum tempo depois, me ofereceu algumas roupas, que foram de seu marido. Agora, sem utilidade, a não ser trazer lembranças dolorosas. Por sorte minha, serviram. Ganhei um casaco, um par de calças, boas botas e um chapéu. Graças a Deus. Joguei meus trapos no fogo, dei graças e tentei, também, queimar as memórias dolorosas do passado.
I was dreaming about the beatiful yellow glow of Sally’s hair.
I heard the door craking. Janote, lifting up the ears. I saw that feminine figure, dressed up in a long white sleep cloak.
Could you, would you, please, come with me. I stand up. Follow her to the bedroom.
She lay down on the bed. She had tears in the eyes. Could you, would you, please, lie down here, and please, don’t go any further, just, just, stand by my side.
Achei aquilo confuso. Ela pediu novamente. Por favor.Tirei o casaco. Deitei.
Janota me olhava desconfiado, mas logo deitou sob o pé da cama e lá ficou.
Depois de alguns segundos, Paula começou a chorar.
Soluçava. Entre soluços e um som de grande agonia, agarrou minha mão.
Pediu desculpas. Pediu que eu ficasse ali. Pediu por favor.
Aquela mulher, aquela fortaleza, aquele ser humano.
Chorando de frente a um desconhecido, fedido e maltrapilho como eu.
O abrigando em sua cama, em seu íntimo.
Apenas para se sentir segura. Se sentir amada. Viva.
Eu permaneci parado. Eu a abracei. E cantei a velha canção que a bruxa, em Thomas Wood, havia cantado para mim.
Oh I’m going
Oh I’m going
My dear
Soon my home will be near me
And by the falls and grace of the Lord
Soon I’ll be home, just after the storm
Even if the mountains grown up
Even if the valley stay down
Foot after foot, day after night
Oh I’m going
My dear
To home
My dear
Until the leaves fall
Until the leaves fall
A Guerra Sally, eu pensei, é a cólera de todos os homens.
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