sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Frustração Zen


Aprendi no frio
Nenhuma cousa passa despercebida
Mas perde-se no suor doce da retina
Haikais frustrados
Uma centena de sílabas tortas
descompenssadas e imprecisas


Cadê a beleza dos certos?
As ressacas do tempestuoso mar
mil rachos sob o casco
a Ilíada


Onde estão traços?
Tua boca de fruta roxa
Lugar deu afogar laços

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Plot Twist

Você já teve medo de perder algo que nunca teve? Receio, frio na barriga, calafrio, aperto no peito, taquicardia ou outro qualquer sintoma de angústia? Como diabos se pode perder algo que nunca foi seu, que não tem controle, nem dono, nem aqueles alarmes de carro que você aperta e, na segurança de ouvir o barulhinho que ele faz quando destranca, se sente rei. Pode ser um sintoma da adolescência tardia, pode ser só besteira da minha cabeça, como muitas coisas, de fato, são. Mas é engraçado, dentre muitos defeitos, eu não sou um cara acostumado a sentir medo. Medo de que? Medo faz parte, medo é o aviso do nosso corpo que estamos lidando com algo de suma importância para nós mesmos, nossas vidas.

No fundo, acho que eu não tenho medo. Eu só não gostaria. Pelo menos é isso que eu fico repetindo para mim mesmo. Tentando ponderar as outras possibilidades. Todo movimento é uma possibilidade, é um risco, e é o medo que ajuda a gente a calcular esse tipo de coisa. Inclusive, o medo de perder algo tão etéreo quanto uma jogada de xadrez, um lugar que você gostaria de visitar e não sabe se terá possibilidade, um momento que você gostaria de viver, mas não tem ideia se ele se tornará realidade.

Fica aquele frio na espinha, a constante desconfiança de que um futuro imaginado pode ruir a qualquer momento. Acho que, nestes casos, quem tem mais imaginação sofre um pouquinho mais. Mas o vilão da história também é o algoz do medo. O tempo. Devagar, com ligeireza, corre tranquilo, deslizando em grind pelas ampulhetas cósmicas e transformando tudo em seu caminho. O mano velho dá seus pulos e aí, de duas uma: ou o medo morre, quando o incerto torna-se certo, ou o medo vive, mas de forma diferente, vira um tipo esquisito de saudade. Uma nostalgia do futuro que nunca aconteceu.

A vida tem dessas, vai contorcendo as paradas dentro e fora, como quem faz massa de pão. E, na real, eu não posso dizer que eu não gosto. Mas também não posso dizer que não tenho medo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Todo torto

As pessoas questionam a minha erudição
há de ser a bermuda, a camiseta amarela com uma girafa e um dinossauro
a barba não há de ser

As pessoas questionam a minha higiene
há de ser a barba, o cabelo desgrenhado
a minha gentileza não há de ser

As pessoas questionam a minha calma
há de ser a minha falta de comprometimento
a minha filosofia de vida não há de ser

As pessoas questionam tudo
e, as vezes, até me fazem questionar
sem razão

Tento não ser escravo das opiniões alheias e, na medida do possível, sou bem sucedido
e posso deixar a minha barba e cabelo do jeito que me apraz
e posso questionar qualquer autoridade que questione o meu jeito de ser
pois sou eu quem rege tudo o que acontece na minha vida

As pessoas continuam questionando tudo
Imaginando tudo
E eu continuo a deixá-las sem resposta

Num mundo de indagadores eu me preocupo em falar menos e fazer mais
E as pessoas questionam meus motivos

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Falso positivo


Poesia é uma amante descabida
ingrata
Não bate à porta
Entra
bagunça todas as minhas coisas
escancara as portas dos armários
joga meus livros no chão
grita como uma psicótica
e me chama a minha cama, entre roupas e papéis
me chama para entrar dentro dela
sem nenhum resquício da fúria que fez ao chegar, há pouco
ela é assim,
poesia

desvairada e incorreta
é como quando você se perde, andando no metrô, e alguma coisa te lembra outra coisa completamente diferente
te lembra uma pessoa, um show qualquer, uma música do Red Hot
aí vem aquela voz
suspiro quente na minha nuca
- escreve, galego, escreve!

Sou rebelde
rompedor de correntes
insurreitoso de botequim
protesto
seguro
dá nada.
danada, lá vem ela novamente

comendo meus dedos, meu pulso
uma língua de ferro quente
um tamborilar sem perceber
de repente, é como se alguém me tomasse pelo braço

escreve, desgraçado, escreve!
E eu não falo desgraça aqui em casa.
Acho palavra muito forte

Aí ela sobe, uma kundalini poética
vooommmm, vupt!
tá na minha nuca de novo
rasgando para os lados como um tigre atacando uma jugular
eu sinto ela dançar
sinto ela ir me puxando para dentro
para fora
para dentro
para fora

Aí ela me deixa ver que eu tô na minha cama de novo
sofrendo de coito interrompido no meio das folhas e gibis
o vento frio bate na minha cara e eu olho o quintal
- Filha da puta!
nem para se despedir

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Vontades

Eu só queria te dizer, te ligar, te falar, que eu nunca senti tanta saudade, tanta falta de algo na minha vida. E eu não consigo nem explicar o quanto eu te amo. \\//

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Bifrost

Como ainda não escrevi sobre isso?
Como ainda não escrevi.

Dei o passo, mãe.
Dei o passo. Sou só eu. Eu e a noite escura, cheia ou não de terrores.

Quanto lágrima ainda tem guardada aqui, mãe.
Não sei, não. Não sei te dizer. Não acho que é mágoa, é só tristeza. Coisa de criança.

Como o tempo passa, né, mãe.
Como a vida vai levando a gente.

Não sei bem onde cheguei não. Tô bem. As vezes acho que tô bem, as vezes acho que tô mal. Faz parte, mãe, faz parte.

Aprendi tudo? Será? Trabalhar tanto, trabalhar muito. Trabalho, trabalho, trabalho. Tô ficando mais próximo dele ou ficando mais longe de mim, mãe.

Quanto tempo que eu não escrevo. Que não sai um verso dessa língua seca. Pensei naquele poema de muitas vidas outro dia. Mas faz tanto tempo, já tô perdendo o tato.

"Tem coisas que aconteceram faz tanto tempo
que parece que foi em outra vida. Com outra pessoa, outro você. Mas aí um cheiro, uma lembrança de leva de volta, e de repente é como se tudo não passasse de um filme. Que maus atores somos nós"

Não era bem assim. Mas memória nunca foi o forte. Cruzei. E agora. Cruzar os outros e cruzar, zarpar. Viver a existência assim, nesse barco de sonhos.

Agradeço todo dia, mãe. Pelo meu dia-a-dia, pela minha vida, por minha família, meus amores, você. Porque eu sei reconhecer que o presente é o maior presente da vida. Com o perdão da piada ruim.

Tô sozinho não, mãe. Tem meu irmão aí, meus irmãos. Que abraço bom, de amor, de carinho. Vai ser um bom homem, mãe. Vou cuidar dele. Pode ter certeza, vou cuidar com a minha vida, como você fez conosco.

Não tenho mais medo de E.T, não tenho medo de nada, mãe. De escravidão, de morte. A loucura ainda me assusta, mãe. Mas eu não vou enlouquecer, não, mãe. Meu coração é forte demais, mãe. Bate-bate-bate. Vai me guiar sempre. Regular meu passo, mostrar o caminho, e vou agradecendo. Vou vivendo as pequenas coisas mãe. Quero dar valor. Usar o que eu aprendi.

perdoa se te desapontei mãe. perdoa se te desapontei pai. Amo vocês.

Dei o passo, mãe. Faz uma semana, um mês, 10 anos que dei o passo, mãe. E não me arrependo não. Era meu caminho. Era pra ser, tá sendo. Vou ser o Corto Maltese. Vou ser melhor que ele, mãe. Vou ser melhor que ele.

O mundo é meu quintal mãe, vou fazer valer cada lágrima que você derramou. A vida que você dedicou para nós criar. Todas, todas as horas de trabalho do pai. Que nada nunca me faltou. Sou guerreiro, mãe. Vou vencer.

Uns dizem que eu tenho sorte, mãe. Pode ser, sempre se precisa de um pouco de sorte. Mas eu sei que não é só isso, não. Tá no sangue, mãe. Tá escrito na wyrd.

Se alguma coisa mudar, se tudo mudar. Se alguém fizer a viagem. Quem fica canta a canção. Segura a saudade. Toca a bola. E agradece. O presente é nosso maior presente, mãe.

Minha vida é meu maior presente. É só é minha graças à vocês.

Muito obrigado. Hora de enxugar lágrima, ir dormir. Trabalhar. Tá na hora mãe, e eu já dei o primeiro passo.

Obrigado por abrir a porta, por me deixar entrar. E sair. Vou ali, vou vencer e já volto.

o sangue é forte, a árvore é firme.
o amor eterno e o lobo é só.

Sou eu.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Não nasci para ser escritor

Não nasci para ser escritor. Sou privado destas nuâncias de citações escalafobêticas de gente que já morreu, dessa misan cêne toda (ia escrever savoir affair, mas como não sei o que este último quer dizer troquei para misan cêne, que dá na mesmissíma coisa), desse jeito rococô e de títulos como cronista, avaliador e sinceras críticas sem pretensão.

Talvez me falte também a organização e disciplina necessárias à função, mas como essas duas seriam falhas minhas e não nenhum exemplo do meu status de “comosoubacana” vou deixar estas de lado.

Eu não deveria ter muita moral para criticar nada, afinal, sou dono de quê? Dois blogs meio nefastos com textos que tem mais erros de português do palavras, dois livros-revista que escrevi para a Escala a custo de nada, com marmitas nem tão recheadas e um editor o tanto quanto chato, merecedor de murros, e muitos, em sua porquíssima face esquelética. Não te esqueci não, paguá.

Ahn, claro, não posso esquecer também da irremedável cobertura entreto-jornalística de alguns reality shows de uma emissora de primeira (e um da, de fato, emissora de primeira). Uma parte de mim diz que não deveria ser tão ruim assim, mas sabe como é, ambição tem esse quê de sucrilhos.

Ou se come com leite ou não se come direito. Sucrilhos seco? Seu filhinho de vó. Revolucionário de condomínio fechado. Filho único.

Sou assim, tenho rompantes e quem não os tiver que atire o primeiro baluarte no meu teto. Zinco. Será que teria eu, também, oras, pois, por que não, telhas Tigre. Turma sagaz para propagandas, hein? clap. Clap. clap.

Enfim, senhores, estamos aqui, em um hotel, longe de casa, com os ecos de um 0x0 entre Corinthians e Santos e nem de futebol eu gosto. Mas, como narra mal este Cléber Machado, hein? Deus me salve. Pronto. Mute. Tudo é belo novamente.

Enfim, voltando lá ao trezeguet que eu soltei no começo, acho que não nasci para ser escritor, editor e coisas desse tipo. O problema é que eu encafifei com a dita ideia e ela não me sai da cabeça nem com banho de gasolina. Hei de vencer pela teimosia, esta. Graças, desde criança eu tenho de sobra.

Vamos então teimosiar a vida, porque, se no fim, bater as botas assim de escanteio, me esgarranchar antes que o buraco negro sugue destas bandas toda a vida, vou poder dizer, olha, posso não ter sido o escrevinhador mais sagaz do mundo, mas, vá lá, se não fui o mais teimoso.

Isso deveria era valer prêmio. Vale-refeição, sei lá. Enfim, tamos que tamos. Olha lá o impedimento irregular. Na dúvida, é sempre melhor arriscar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Migrante

Das colinas
De lá pra cá
Pirata desprovido de nau
Encabeçado num rumo
sem brisa sem leme
O roteiro esconde
o que segue

Retorno
sempre
iminente.

Ainda vivo.
Ainda aqui.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Risen

Magimodelador

como um planinauta
ou uma girafa roxa
um beija-flor escurecido pela noite
uma miríade infinita de olhos e sorrisos

tem muitas, muitas formas
curvilíneas, suaves, áspera, as vezes, como meu rosto
meu cabelo
mas, também belas, úmidas, quentes

um arfar pesado
que alivia ou aumenta a tensão
uma, duas, cinco vezes
centenas serão, milhares
os números não fazem diferença aqui

pois eles não são capazes de limitar
quantos números tem daqui até plutão?
quantos carros azuis?

nada, pode comprar aquele prazer de acordar
início de tarde
e perceber ser, eu mesmo, a única peça expressionista fora de lugar naquele momento
retrato divino
pintura renascentista

minha memória nunca foi prodigiosa
porém lembro de vários instantes
mas um permanece eterno, perene na minha mente a cada renascer do sol

lá estava ela
como Belit, como uma criatura a tocar os lençois, suavemente com as mãos
os cabelos negros contornavam seu pescoço como um colar que afaga a pele sem ruídos
o rosto, a me sorrir me olhava de lado como quem convida a transcender aos planos superiores
ascender em carinho, prazer
um caminho bem delineado
pelas escuras penas da Phoenix a indicar a direção

Me desculpem os mortais que nunca tiveram momentos memoráveis em suas vidas
Porque só eu sei o quão mágica e enebriante é essa visão.
Porque cada homem sabe da dimensão da dor que carrega.
Dos sonhos, ambições, desejos, medo e vontade.

E só eu sei, como é amar essa mulher. Um sentimento tão puro, simples, volátil, enaltecedor.
Melhor do que amar é se sentir amado em seus braços, nuca, pele, lábios.
sorriso.
olhos.
sorriso.

como dizia
grande é a variedade de formas e sensações
para aquele que sabe que o corpo físico ainda é receptáculo pequeno
porque quando me prostei de joelhos e olhei fundo nos seus olhos
aquele brilho, aquilo tudo, tomou conta de mim

e hoje meu espírito reluz
um fulgor de vida
respiração profunda

estrela cadente de amar

Se a vida, se tudo isso, faz parte do trabalho, da labuta, do processo
acho que estou na fase bônus
encantado.

As últimas encarnações não me deixaram manual de instruções. Não me avisaram dos barulhos, nem das leis e coisas das cabeças dos homens.

Mas, de certo, já me deixaram ciente.
Como você disse certa vez.

Porque se tem que ser alguém. Há de ser você.

E os gordos, bobos ou não, e os carros, o dinheiro, e o calendário não me preocupam. Não é por excesso de confiança, ou intensidade, mas é por saber, após as primeiras nove horas ou das últimas duas.

Que tudo tem seu devido momento. Seja uma reação boa ou momentânea sensação ruim. A vida é como um grande passeio na roda gigante.

E quero fazer questão de continuar aqui. Ao seu lado.


ao seu lado, Valpolicella.

...

O lobo alpha quando encontra a parceira adequada permanece fiel a ela e seus rebentos durante toda a vida. Alimentando a matilha e o clã, e exercendo a função de líder do grupo de machos enquanto a fêmea desempenha o mesmo papel entre as suas.

Eu não conheço muitos lobos. Ou lobas.

Que pena.

domingo, 4 de julho de 2010

vide-bula

Eu gostaria que fosse diferente
Mas não é
Eu gostaria
Mas não é

Eu queria passar por cima de tudo
Mas não dá
Eu queria
Mas não dá

Eu queria pegar todos os resultados dos exames e rasgar
Mas não dá
Eu queria
Mas não dá

Eu queria pegar todo o dinheiro que tenho
E sacar
E gastar
E correr
E gritar

Mas, adivinha?
Não dá.

Eu queria pegar todos os remédios.
E tomar.
Mas, também não dá.

Então eu escrevo.
E minha máquina de escrever "tilinta", sem parar.

Porque só eu sei a dor que carrego.
E não dá para carregar.
Não dá.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

J (Zeger)

Ela não me quis porque eu tenho uma barba, grande e malfeita que não deve ser coisa de gente bem afeiçoada.

Ela não me quis porque minhas roupas não combinam, não são da moda, porque eu uso chapéu e porque minha jaqueta está manchada de cândida.

Ela não me quis porque eu cheiro a bebida barata e desodorante vagabundo, e perfume? Bem, nem perfume eu uso.

Ela não me quis porque eu falo muito e a moda hoje é falar pouco e ter ar de mistério.

Ela não me quis porque eu danço com a elegância daqueles que não fazem questão de serem vistos e porque tenho mais de 1m90.

Ela não me quis porque meu papo sobre astrologia e as verdades da vida parece conversa fiada.

Ela não me quis porque sou pobre, feio, pé-rapado, xavequeiro de merda que nem tem onde cair morto.

Ela não me quis, principalmente, porque ela não me conhece.

.
E é preciso conhecer para se desejar de verdade.
.

Ela não me quis... porque ela não leu essa poesia.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Meu olhar

Que saudade.
Meu olhar é difusão.
É um estrabismo descabido
meio olho no passado, meio olho no futuro
e um par de retinas no presente que se transforma
em passado e em futuro mais rápido do que eu posso acompanhar

meu olhar as vezes é para dentro
que, por mais engraçado que pareça, costuma ter mais luz e claridade do que o lado de fora
mas, é para a "externidade" também

gostaria tanto de que meu olhar tornasse-se também um par de ouvidos
para ouvir todos e entender e viver pelos olhares dos outros
um momento, um dia, um sol

por isso eu não gosto de óculos escuros, ou lentes, ou tudo mais que desfoque o olhar
gosto do brilho, do pulsar, e da coceira de manhã
do cansaço, do pesar das pupilas, das pontadas e do ardor

porque, já me ensinaram uma vez:
saber olhar é mais importante do que saber viver

a vida não passa de um feixe de luz
e cada dia, é uma piscadela separadora de cores
e nesse rodopiante caledoscópio cromático
eu adotei a ótica do bem viver

olhe para isso como se não fossem palavras
veja seus olhos que a cegueira jamais roubará.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Coordenadas

Roda,
como um planeta
gira devagar
sem cair
sem tentar
mostra
que existe muito mais
do que um titubear de passos
um engasgo de sílabas
duas riscadas de compasso

Muda,
como as fases da lua
como uma palavra surda
sem voz para desamarrar
como era tempo
como um contratempo
bússola
sonar

Vem,
vem comigo
vou te mostrar
que a vida
é um imenso bambolê
cabe a cada um
brincar
num eterno jogo de cintura
dias após dia
sonhar

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Yellowsilver

tá de rasgar o peito, tchôna
de rasgar o peito.

acho que se pá
tô morrendo por dentro

ou já morri

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Refina-me

Tem dias que eu me faço pouco
e tem dias que eu me faço farto
como aquele agradecimento sincero
como um impulso incontrolável

besta-fera
peste do samba
para mim, tudo gira numa imensa ciranda de letras
e no final, eu não consigo ir no cavalinho azul

eu preferia a motinho preta
mas, ela tá sempre ocupada

Que o Devorador de sonhos consuma-te
ocupador da motinho preta

que nessa supra de egoísmo crayon
eu quero tudo que é meu de direito

liberdade além do papel
desejo mais que tudo
realidade ao alcance dos dedos
desejo mais que tudo
aquele punhado de beijos

a morte das mentiras
seu cheiro
outro dia sonhei contigo
é

você me abraçava tão forte
tão forte
e tudo era seu cheiro


exuberante como sempre foi
orquídea da minha vida
se você soubesse
ai, se você soubesse

quem sabe, se você soubesse, aquele abraço não tardaria tanto a chegar

nem me escuta mais
nem lembra do tom da minha voz no telefone
das músicas

foi como em um dia
muito lindo

todo mundo sabe que eu não sou uma fortaleza de aço
só para os tolos sou um totem impenetrável
mas, ninguém sabe meu segredo

não é uma lista de palavras vazias
nem dicionário
nem cidade com nome de fruta

tem dias, que me falta clareza
e me sobra sonho
de pegar com a mão
colocar na casquinha e tomar feito sorvete

mas, mesmo depois de uma anomalia temporal
de uma tempestade de aranhas tecelãs da terceira era

é seu cheiro
e o meu segredo
plantado no meu coração

não há doutor que cure meu mal
vivo assim

refina-me
e me conduz para essa lágrima
doce feito o argil do ferro
sobra saudade e sal

refina-me
e me arremessa como pássaro
defenestra-me para além da motinho preta

porque eu sou assim
e meu mal é não querer a mim
refina-me
para que eu possa olhar além
de Rá-Amon
da cúpula do trovão
das cicatrizes do seu coração

sabe, quando a Julia canta
quando ela canta macia no meu solo
Julia, meu amor
só teu grave consola meu afeto
de resto
noite, tsuki, rede de segurança e deserto

refina-me
refina me
até que o sol se separe

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Homens amargos como eu

Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Oh Deuses, por que?
Por que gira tão devagar?

domingo, 17 de janeiro de 2010

Encourse

Bem depois de onde se vê
logo ali aonde não se alcança
Sutis toques de violência
envolvidos em devastadora esperança

O tempo e caminhar
cada rota que o mundo dá
Nem tudo é sentido

simples como respirar

Logo ali aonde não se alcança
bem depois de onde se vê
um escudo de contra-vontades
o desejo e o viver

a mais maravilhosa jornada
perdida em um momento

o mais belos dos olhares
impetuoso contra o vento

sons, passos, cavernas e encostas
eu, eterno apaixonado
você, variável incógnita

unidade é um recado esquecido
diversidade um brinde bem-vindo

austero eu caminho comigo
velejar seus sonhos
meu novo destino
aportar em pensamentos
sem saques ou espólios

meritório
tudo na vida é meritório
matter of fact
seu território

ao contrário
contraditório
instigar
não é de hoje
irrisório

reduzir amplitude em palavras
falatório

conduzir cavalos com amarras
dispensável

minha conquista
incalculável

assim, naturalmente

logo ali
bem depois
de onde se vê
aonde não se alcança

minha alma
magneticamente se encanta
recompensa tão aguardada

vindoura lembrança

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Não quero mais seus dentes

Faz tempo que eu não te via, né.
eu sei, eu sei.
Mas, sei que ela cuidou muito bem de você.
Muito melhor do que eu poderia ter cuidado, provavelmente.

Mas, você sempre foi arteira, não é?
Sempre esperando meu momento de deslize pra fugir.
Tenho até hoje as cicatrizes do seu primeiro banho. Guardo com carinho.

Você era nosso símbolo de tudo que poderia dar certo.
De tudo que tinhamos um pelo outro.
Fico me perguntando se isso também se foi. Se vai se esvair, enfraquecer.

Pessoal dizia que você era feio e sem graça, mas, era tudo mentira.
Você é adorável. Meio quietona, claro. E, tudo bem que eu só soube que você era menina depois que eu já tinha partido.
Fazer o que...

Mas, a gente conversava bastante.
E gostava de tomar sol junto.
E são dessas coisas que eu vou lembrar.
Porque eu te amo muito.

Agradeço demais a sua mãe, porque tenho certeza que ela fez de tudo para te deixar aqui.
Mas, tudo tem sua hora né.
Você veio para gente para encontrar um lugar melhor.
Agora, tenho certeza que você está no melhor lugar possível.

Não vou te mandar um beijo, porque você iria virar a cabeça e fazer aquela cara de não que só você faz.
Nem vou fazer carinho na crista, porque você também não gosta.
Vou te pegar mentalmente e te colocar no sol, ficar te olhando, olhando, pensando no que você está pensando.
E aí, quando você tentar fugir, voltar pro verde. Eu vou te deixar ir.
Para sempre.

Tchau Darwin.
Ou Darwin-Lúcia.
Fica bem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

eu não valho nada

eu não valho nada

não valho mesmo
como sempre digo, não valho uma moeda de dois.
pessoas muitas vezes não tem culpa por pesar as coisas
pesam
para bem ou para mal

eu
odeio comparações
odeio julgamentos que não sejam os meus
e, claro, me dou esse direito, como todo ser humano egoísta que habita esse magnífico planeta

mas, diferentemente de todos os outros seres humanos que habitam esse magnífico planeta
eu não valho nada
não como o Sawyer ou como o Cyrano
nem como qualquer calhorda que bate na mulher
nem como qualquer assassino que mata crianças
nem como qualquer ditador
ou como qualquer corrupto sujo e de sorriso amarelo
nem como qualquer fumante intrépido
ou como qualquer bebâdo descontrolado
nem como qualquer extremista inconsistente
nem como um defensor moralista
nem como uma mulher bonita

eu não valho nada
porque meu valor não dá para julgar
não dá para pesar
nem o seu
nem o dela
o dele
ou o Sawyer do Cyrano do calhorda do assassino do ditador do corrupto do fumante do descontrolado do extremista do defensor e da bonita
sabe, muitos caras já disseram isso antes de mim
e eles tem livros com nomes pomposos que você pode comprar na Cultura, na Saraiva, na Nobel

só tem uma pequena diferença entre eles, eu e você
é a seguinte, darling
eu também pego metrô
eu também tomo chuva
eu também fico no trânsito de São Paulo
eu também passo vontade

e aí, vejamos
eles ficam lá, com seus ideais de prateleira morta
de séculos passados
e ficamos todos nós
o calhorda, o corrupto, a mulher, o defensor
o mentiroso, o certinho, o pastor, o homem que vende algodão doce
o caixa do mercadinho.
em um mundo real
feito de pessoas e calor
sentimentos e suor

e aqui, nesse mundo, tão real quanto nós
eu preciso te mostrar que a gente não vale nada
e esquentar a cabeça assim
apenas apressa seu caminho

uma coisa é comodismo
conforto
outra coisa é aproveitar a viagem

se você sabe que não dá para pesar o valor de ninguém além de você
aprende uma coisa
filósofo não pega a linha azul
sociologia não paga as contas, a menos que você trabalhe muito
e eu, eu só estou tentando seguir viagem

ninguém vale nada nesse mundo
ninguém vale nada
ninguém nem tem peso

cada um só pode saber do seu
e, se no vislumbre, se no meio do caminho você for capaz de encontrar alguém
e por segundos, meses, dias, instantes você for capaz de fechar as mãos, olhar nos olhos e sentir (não saber) o peso
o valor daquela pessoa ali, na sua frente
então, você pode dizer de peito cheio
que já conheceu o amor


.
que já conheceu o amor.
.


o único segredo
como cego que é, depende de nós para muitas de suas proezas
mas, acredite
ele pode muito bem, levantar e, simplesmente ir embora

e quando você se remoer em julgamentos, Lispector ou Meireles
Drummond e qualquer europeu cheio de consoantes

vai ecoar meio tímido
um baque surdo
não julgue o amor
não apresse seu caminho
no fim
ele também não vale nada

e se você sentir que vale alguma coisa
se apertar o peito
se acreditar
como eu acredito, que talvez o tilintar da varinha do cego é o que rege o certo e errado do mundo
então você entenderá que nada realmente tem peso
pois não dá para julgar o amor

de todos os calhordas, canalhas, corruptos, sujos e vis pessoas do mundo
que também amam como nós
eu sou o que menos vale
eu não valho nada.
nem uma moeda de dois.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cosmic Warhog

Júpiter não se contentava com os olhos de um planeta que não podia ver. Espremia a visão pela lente dos instrumentos e nada o saciava. Sedimentos caiam do teto, continua e sinceramente, como algo que pede desculpas por incomodar. Haveria de descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo. O cometa aonde encontrava-se a sua in-torre, rodopiava sem destino. Desceu as escadas, e a gravidade se inverteu. Continou subindo as escadas, que vinha descendo, e chegou a uma sala ampla.

Seus cabelos tinham duas cores. Castanhos escuros como o âmbar e um laranja, entre o violeta e a violência. Amarrava-os de tal maneira por sobre a cabeça que eles pareciam estar sempre atentos, uma cauda de cabelos vigilantes. O rosto era angulado e liso. Uma capa de alta gola azul por sobre um casaco comprido, que mais parecia um roupão. Nas mãos anéis sobre ataduras e ataduras sobre marcas, como tatuagens. No peito, reluzia o peso de talismãs, rodas, chaves e formas de uma geometria sabida só à ele. Não havia pés, ou uma porção na parte debaixo do corpo, só as roupas compridas, penduradas a arrastar a poeira que insistia em cair do chão, em sentido ao teto.

Valamaris, seu irmão, chegou. Entrou. Sua presença fez o cometa entristecer. Ele corria com as palavras e as estrelas se enchiam de mágoa ao ve-lô. Era austero e coberto de toda sorte de peles de animais e outras coisas que não ele. Seus olhos fundos, velozes, fitavam, e as pessoas que os olhavam, não acordavam mais. Seus pés, descalço sob o solo, tinham 5 dedos. Suas pernas eram rajadas como listras, e sob a cabeça uma enorme ondulação, em forma de crista, descia até a nuca. Ele amarrava os cabelos negros de tal forma por sobre detrás da cabeça, que eles pareciam uma longa cauda. E seu cabelo era comprido como um anel de asteroides.

E Valamaris falou com Júpiter.

- Não te asseguro nada. Pois, a mim só cabe correr.

Júpiter pensou no que seu irmão falava. E, sentido na frase não havia. Não havia sentido nenhum. Então, ele, que se arrumava para partir rumo ao planeta que fugia da sua vista lembrou-se que teria de viajar. E, em um instante, perguntou-se como o faria. E, logo lembrou-se que seu irmão ali estava e levá-lo ele podia. Mas, a viagem haveria de ser perigosa. Deveria então, perguntar a Valamaris, o velocista, o que achava. Mas, lembrou-se da frase do seu irmão. E descobriu que poderia ir, sem qualquer garantia. E percebeu então, que era ele também um velocista no pensamento e na audácia.

Júpiter não falava, pois sua voz estremecia os planetas e fazia as dimensões mudarem de lugar. Então, chamou Posha-loo, pois, cabia a ele falar. E Posha-loo subiu as escadas e depois desceu, e chegou a sala mais vasta e ao ver Valamaris, abaixou as orelhas como quem diz que há ter visto Valamaris. Posha-loo tinha uma pele espessa, de tom rosáceo e um nariz curto e com três narinas, e também tinha três olhos, emparelhados no campo de visão. E também tinha quatro braços, e duas caudas torcidas e enroladas. E era grande como um pequeno planeta, mas, seu corpo era de tal maneira impressionante que caberia até no espaço de uma pequena colher se, assim o desajasse. E ele disse a Valamaris.

- Júpiter que vai descer ao mundo além da vista.

Veio Valamaris e tocou nos ombros do irmão, e como uma explosão silenciosa e tão forte e rápida que até mesmo a realidade demora a encontrá-la, eles sumiram. Um grande estrondo estremeceu a asteróide da in-torre. E ele, de tristeza, pois os celestes se enchem de mágoa ao ver Valamaris, o corredor, rachou-se. E Posha-loo voltou-se para a lacuna de onde viera e sorriu.