terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Refina-me

Tem dias que eu me faço pouco
e tem dias que eu me faço farto
como aquele agradecimento sincero
como um impulso incontrolável

besta-fera
peste do samba
para mim, tudo gira numa imensa ciranda de letras
e no final, eu não consigo ir no cavalinho azul

eu preferia a motinho preta
mas, ela tá sempre ocupada

Que o Devorador de sonhos consuma-te
ocupador da motinho preta

que nessa supra de egoísmo crayon
eu quero tudo que é meu de direito

liberdade além do papel
desejo mais que tudo
realidade ao alcance dos dedos
desejo mais que tudo
aquele punhado de beijos

a morte das mentiras
seu cheiro
outro dia sonhei contigo
é

você me abraçava tão forte
tão forte
e tudo era seu cheiro


exuberante como sempre foi
orquídea da minha vida
se você soubesse
ai, se você soubesse

quem sabe, se você soubesse, aquele abraço não tardaria tanto a chegar

nem me escuta mais
nem lembra do tom da minha voz no telefone
das músicas

foi como em um dia
muito lindo

todo mundo sabe que eu não sou uma fortaleza de aço
só para os tolos sou um totem impenetrável
mas, ninguém sabe meu segredo

não é uma lista de palavras vazias
nem dicionário
nem cidade com nome de fruta

tem dias, que me falta clareza
e me sobra sonho
de pegar com a mão
colocar na casquinha e tomar feito sorvete

mas, mesmo depois de uma anomalia temporal
de uma tempestade de aranhas tecelãs da terceira era

é seu cheiro
e o meu segredo
plantado no meu coração

não há doutor que cure meu mal
vivo assim

refina-me
e me conduz para essa lágrima
doce feito o argil do ferro
sobra saudade e sal

refina-me
e me arremessa como pássaro
defenestra-me para além da motinho preta

porque eu sou assim
e meu mal é não querer a mim
refina-me
para que eu possa olhar além
de Rá-Amon
da cúpula do trovão
das cicatrizes do seu coração

sabe, quando a Julia canta
quando ela canta macia no meu solo
Julia, meu amor
só teu grave consola meu afeto
de resto
noite, tsuki, rede de segurança e deserto

refina-me
refina me
até que o sol se separe

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Homens amargos como eu

Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Oh Deuses, por que?
Por que gira tão devagar?

domingo, 17 de janeiro de 2010

Encourse

Bem depois de onde se vê
logo ali aonde não se alcança
Sutis toques de violência
envolvidos em devastadora esperança

O tempo e caminhar
cada rota que o mundo dá
Nem tudo é sentido

simples como respirar

Logo ali aonde não se alcança
bem depois de onde se vê
um escudo de contra-vontades
o desejo e o viver

a mais maravilhosa jornada
perdida em um momento

o mais belos dos olhares
impetuoso contra o vento

sons, passos, cavernas e encostas
eu, eterno apaixonado
você, variável incógnita

unidade é um recado esquecido
diversidade um brinde bem-vindo

austero eu caminho comigo
velejar seus sonhos
meu novo destino
aportar em pensamentos
sem saques ou espólios

meritório
tudo na vida é meritório
matter of fact
seu território

ao contrário
contraditório
instigar
não é de hoje
irrisório

reduzir amplitude em palavras
falatório

conduzir cavalos com amarras
dispensável

minha conquista
incalculável

assim, naturalmente

logo ali
bem depois
de onde se vê
aonde não se alcança

minha alma
magneticamente se encanta
recompensa tão aguardada

vindoura lembrança

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Não quero mais seus dentes

Faz tempo que eu não te via, né.
eu sei, eu sei.
Mas, sei que ela cuidou muito bem de você.
Muito melhor do que eu poderia ter cuidado, provavelmente.

Mas, você sempre foi arteira, não é?
Sempre esperando meu momento de deslize pra fugir.
Tenho até hoje as cicatrizes do seu primeiro banho. Guardo com carinho.

Você era nosso símbolo de tudo que poderia dar certo.
De tudo que tinhamos um pelo outro.
Fico me perguntando se isso também se foi. Se vai se esvair, enfraquecer.

Pessoal dizia que você era feio e sem graça, mas, era tudo mentira.
Você é adorável. Meio quietona, claro. E, tudo bem que eu só soube que você era menina depois que eu já tinha partido.
Fazer o que...

Mas, a gente conversava bastante.
E gostava de tomar sol junto.
E são dessas coisas que eu vou lembrar.
Porque eu te amo muito.

Agradeço demais a sua mãe, porque tenho certeza que ela fez de tudo para te deixar aqui.
Mas, tudo tem sua hora né.
Você veio para gente para encontrar um lugar melhor.
Agora, tenho certeza que você está no melhor lugar possível.

Não vou te mandar um beijo, porque você iria virar a cabeça e fazer aquela cara de não que só você faz.
Nem vou fazer carinho na crista, porque você também não gosta.
Vou te pegar mentalmente e te colocar no sol, ficar te olhando, olhando, pensando no que você está pensando.
E aí, quando você tentar fugir, voltar pro verde. Eu vou te deixar ir.
Para sempre.

Tchau Darwin.
Ou Darwin-Lúcia.
Fica bem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

eu não valho nada

eu não valho nada

não valho mesmo
como sempre digo, não valho uma moeda de dois.
pessoas muitas vezes não tem culpa por pesar as coisas
pesam
para bem ou para mal

eu
odeio comparações
odeio julgamentos que não sejam os meus
e, claro, me dou esse direito, como todo ser humano egoísta que habita esse magnífico planeta

mas, diferentemente de todos os outros seres humanos que habitam esse magnífico planeta
eu não valho nada
não como o Sawyer ou como o Cyrano
nem como qualquer calhorda que bate na mulher
nem como qualquer assassino que mata crianças
nem como qualquer ditador
ou como qualquer corrupto sujo e de sorriso amarelo
nem como qualquer fumante intrépido
ou como qualquer bebâdo descontrolado
nem como qualquer extremista inconsistente
nem como um defensor moralista
nem como uma mulher bonita

eu não valho nada
porque meu valor não dá para julgar
não dá para pesar
nem o seu
nem o dela
o dele
ou o Sawyer do Cyrano do calhorda do assassino do ditador do corrupto do fumante do descontrolado do extremista do defensor e da bonita
sabe, muitos caras já disseram isso antes de mim
e eles tem livros com nomes pomposos que você pode comprar na Cultura, na Saraiva, na Nobel

só tem uma pequena diferença entre eles, eu e você
é a seguinte, darling
eu também pego metrô
eu também tomo chuva
eu também fico no trânsito de São Paulo
eu também passo vontade

e aí, vejamos
eles ficam lá, com seus ideais de prateleira morta
de séculos passados
e ficamos todos nós
o calhorda, o corrupto, a mulher, o defensor
o mentiroso, o certinho, o pastor, o homem que vende algodão doce
o caixa do mercadinho.
em um mundo real
feito de pessoas e calor
sentimentos e suor

e aqui, nesse mundo, tão real quanto nós
eu preciso te mostrar que a gente não vale nada
e esquentar a cabeça assim
apenas apressa seu caminho

uma coisa é comodismo
conforto
outra coisa é aproveitar a viagem

se você sabe que não dá para pesar o valor de ninguém além de você
aprende uma coisa
filósofo não pega a linha azul
sociologia não paga as contas, a menos que você trabalhe muito
e eu, eu só estou tentando seguir viagem

ninguém vale nada nesse mundo
ninguém vale nada
ninguém nem tem peso

cada um só pode saber do seu
e, se no vislumbre, se no meio do caminho você for capaz de encontrar alguém
e por segundos, meses, dias, instantes você for capaz de fechar as mãos, olhar nos olhos e sentir (não saber) o peso
o valor daquela pessoa ali, na sua frente
então, você pode dizer de peito cheio
que já conheceu o amor


.
que já conheceu o amor.
.


o único segredo
como cego que é, depende de nós para muitas de suas proezas
mas, acredite
ele pode muito bem, levantar e, simplesmente ir embora

e quando você se remoer em julgamentos, Lispector ou Meireles
Drummond e qualquer europeu cheio de consoantes

vai ecoar meio tímido
um baque surdo
não julgue o amor
não apresse seu caminho
no fim
ele também não vale nada

e se você sentir que vale alguma coisa
se apertar o peito
se acreditar
como eu acredito, que talvez o tilintar da varinha do cego é o que rege o certo e errado do mundo
então você entenderá que nada realmente tem peso
pois não dá para julgar o amor

de todos os calhordas, canalhas, corruptos, sujos e vis pessoas do mundo
que também amam como nós
eu sou o que menos vale
eu não valho nada.
nem uma moeda de dois.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cosmic Warhog

Júpiter não se contentava com os olhos de um planeta que não podia ver. Espremia a visão pela lente dos instrumentos e nada o saciava. Sedimentos caiam do teto, continua e sinceramente, como algo que pede desculpas por incomodar. Haveria de descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo. O cometa aonde encontrava-se a sua in-torre, rodopiava sem destino. Desceu as escadas, e a gravidade se inverteu. Continou subindo as escadas, que vinha descendo, e chegou a uma sala ampla.

Seus cabelos tinham duas cores. Castanhos escuros como o âmbar e um laranja, entre o violeta e a violência. Amarrava-os de tal maneira por sobre a cabeça que eles pareciam estar sempre atentos, uma cauda de cabelos vigilantes. O rosto era angulado e liso. Uma capa de alta gola azul por sobre um casaco comprido, que mais parecia um roupão. Nas mãos anéis sobre ataduras e ataduras sobre marcas, como tatuagens. No peito, reluzia o peso de talismãs, rodas, chaves e formas de uma geometria sabida só à ele. Não havia pés, ou uma porção na parte debaixo do corpo, só as roupas compridas, penduradas a arrastar a poeira que insistia em cair do chão, em sentido ao teto.

Valamaris, seu irmão, chegou. Entrou. Sua presença fez o cometa entristecer. Ele corria com as palavras e as estrelas se enchiam de mágoa ao ve-lô. Era austero e coberto de toda sorte de peles de animais e outras coisas que não ele. Seus olhos fundos, velozes, fitavam, e as pessoas que os olhavam, não acordavam mais. Seus pés, descalço sob o solo, tinham 5 dedos. Suas pernas eram rajadas como listras, e sob a cabeça uma enorme ondulação, em forma de crista, descia até a nuca. Ele amarrava os cabelos negros de tal forma por sobre detrás da cabeça, que eles pareciam uma longa cauda. E seu cabelo era comprido como um anel de asteroides.

E Valamaris falou com Júpiter.

- Não te asseguro nada. Pois, a mim só cabe correr.

Júpiter pensou no que seu irmão falava. E, sentido na frase não havia. Não havia sentido nenhum. Então, ele, que se arrumava para partir rumo ao planeta que fugia da sua vista lembrou-se que teria de viajar. E, em um instante, perguntou-se como o faria. E, logo lembrou-se que seu irmão ali estava e levá-lo ele podia. Mas, a viagem haveria de ser perigosa. Deveria então, perguntar a Valamaris, o velocista, o que achava. Mas, lembrou-se da frase do seu irmão. E descobriu que poderia ir, sem qualquer garantia. E percebeu então, que era ele também um velocista no pensamento e na audácia.

Júpiter não falava, pois sua voz estremecia os planetas e fazia as dimensões mudarem de lugar. Então, chamou Posha-loo, pois, cabia a ele falar. E Posha-loo subiu as escadas e depois desceu, e chegou a sala mais vasta e ao ver Valamaris, abaixou as orelhas como quem diz que há ter visto Valamaris. Posha-loo tinha uma pele espessa, de tom rosáceo e um nariz curto e com três narinas, e também tinha três olhos, emparelhados no campo de visão. E também tinha quatro braços, e duas caudas torcidas e enroladas. E era grande como um pequeno planeta, mas, seu corpo era de tal maneira impressionante que caberia até no espaço de uma pequena colher se, assim o desajasse. E ele disse a Valamaris.

- Júpiter que vai descer ao mundo além da vista.

Veio Valamaris e tocou nos ombros do irmão, e como uma explosão silenciosa e tão forte e rápida que até mesmo a realidade demora a encontrá-la, eles sumiram. Um grande estrondo estremeceu a asteróide da in-torre. E ele, de tristeza, pois os celestes se enchem de mágoa ao ver Valamaris, o corredor, rachou-se. E Posha-loo voltou-se para a lacuna de onde viera e sorriu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

19:17

ecoou como o Shadhishivartha
quem é você?

ecoou como o Shadhishivartha.
como o Unabomber.
como todos os vincos nas dobras de páginas.

ecoou.

e me precipitei-me.
como um khazad-dum.
e cai eternamente.