quarta-feira, 16 de junho de 2010

J (Zeger)

Ela não me quis porque eu tenho uma barba, grande e malfeita que não deve ser coisa de gente bem afeiçoada.

Ela não me quis porque minhas roupas não combinam, não são da moda, porque eu uso chapéu e porque minha jaqueta está manchada de cândida.

Ela não me quis porque eu cheiro a bebida barata e desodorante vagabundo, e perfume? Bem, nem perfume eu uso.

Ela não me quis porque eu falo muito e a moda hoje é falar pouco e ter ar de mistério.

Ela não me quis porque eu danço com a elegância daqueles que não fazem questão de serem vistos e porque tenho mais de 1m90.

Ela não me quis porque meu papo sobre astrologia e as verdades da vida parece conversa fiada.

Ela não me quis porque sou pobre, feio, pé-rapado, xavequeiro de merda que nem tem onde cair morto.

Ela não me quis, principalmente, porque ela não me conhece.

.
E é preciso conhecer para se desejar de verdade.
.

Ela não me quis... porque ela não leu essa poesia.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Meu olhar

Que saudade.
Meu olhar é difusão.
É um estrabismo descabido
meio olho no passado, meio olho no futuro
e um par de retinas no presente que se transforma
em passado e em futuro mais rápido do que eu posso acompanhar

meu olhar as vezes é para dentro
que, por mais engraçado que pareça, costuma ter mais luz e claridade do que o lado de fora
mas, é para a "externidade" também

gostaria tanto de que meu olhar tornasse-se também um par de ouvidos
para ouvir todos e entender e viver pelos olhares dos outros
um momento, um dia, um sol

por isso eu não gosto de óculos escuros, ou lentes, ou tudo mais que desfoque o olhar
gosto do brilho, do pulsar, e da coceira de manhã
do cansaço, do pesar das pupilas, das pontadas e do ardor

porque, já me ensinaram uma vez:
saber olhar é mais importante do que saber viver

a vida não passa de um feixe de luz
e cada dia, é uma piscadela separadora de cores
e nesse rodopiante caledoscópio cromático
eu adotei a ótica do bem viver

olhe para isso como se não fossem palavras
veja seus olhos que a cegueira jamais roubará.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Coordenadas

Roda,
como um planeta
gira devagar
sem cair
sem tentar
mostra
que existe muito mais
do que um titubear de passos
um engasgo de sílabas
duas riscadas de compasso

Muda,
como as fases da lua
como uma palavra surda
sem voz para desamarrar
como era tempo
como um contratempo
bússola
sonar

Vem,
vem comigo
vou te mostrar
que a vida
é um imenso bambolê
cabe a cada um
brincar
num eterno jogo de cintura
dias após dia
sonhar

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Yellowsilver

tá de rasgar o peito, tchôna
de rasgar o peito.

acho que se pá
tô morrendo por dentro

ou já morri

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Refina-me

Tem dias que eu me faço pouco
e tem dias que eu me faço farto
como aquele agradecimento sincero
como um impulso incontrolável

besta-fera
peste do samba
para mim, tudo gira numa imensa ciranda de letras
e no final, eu não consigo ir no cavalinho azul

eu preferia a motinho preta
mas, ela tá sempre ocupada

Que o Devorador de sonhos consuma-te
ocupador da motinho preta

que nessa supra de egoísmo crayon
eu quero tudo que é meu de direito

liberdade além do papel
desejo mais que tudo
realidade ao alcance dos dedos
desejo mais que tudo
aquele punhado de beijos

a morte das mentiras
seu cheiro
outro dia sonhei contigo
é

você me abraçava tão forte
tão forte
e tudo era seu cheiro


exuberante como sempre foi
orquídea da minha vida
se você soubesse
ai, se você soubesse

quem sabe, se você soubesse, aquele abraço não tardaria tanto a chegar

nem me escuta mais
nem lembra do tom da minha voz no telefone
das músicas

foi como em um dia
muito lindo

todo mundo sabe que eu não sou uma fortaleza de aço
só para os tolos sou um totem impenetrável
mas, ninguém sabe meu segredo

não é uma lista de palavras vazias
nem dicionário
nem cidade com nome de fruta

tem dias, que me falta clareza
e me sobra sonho
de pegar com a mão
colocar na casquinha e tomar feito sorvete

mas, mesmo depois de uma anomalia temporal
de uma tempestade de aranhas tecelãs da terceira era

é seu cheiro
e o meu segredo
plantado no meu coração

não há doutor que cure meu mal
vivo assim

refina-me
e me conduz para essa lágrima
doce feito o argil do ferro
sobra saudade e sal

refina-me
e me arremessa como pássaro
defenestra-me para além da motinho preta

porque eu sou assim
e meu mal é não querer a mim
refina-me
para que eu possa olhar além
de Rá-Amon
da cúpula do trovão
das cicatrizes do seu coração

sabe, quando a Julia canta
quando ela canta macia no meu solo
Julia, meu amor
só teu grave consola meu afeto
de resto
noite, tsuki, rede de segurança e deserto

refina-me
refina me
até que o sol se separe

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Homens amargos como eu

Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Homens amargos como eu sabem das voltas que a vida dá
Oh Deuses, por que?
Por que gira tão devagar?

domingo, 17 de janeiro de 2010

Encourse

Bem depois de onde se vê
logo ali aonde não se alcança
Sutis toques de violência
envolvidos em devastadora esperança

O tempo e caminhar
cada rota que o mundo dá
Nem tudo é sentido

simples como respirar

Logo ali aonde não se alcança
bem depois de onde se vê
um escudo de contra-vontades
o desejo e o viver

a mais maravilhosa jornada
perdida em um momento

o mais belos dos olhares
impetuoso contra o vento

sons, passos, cavernas e encostas
eu, eterno apaixonado
você, variável incógnita

unidade é um recado esquecido
diversidade um brinde bem-vindo

austero eu caminho comigo
velejar seus sonhos
meu novo destino
aportar em pensamentos
sem saques ou espólios

meritório
tudo na vida é meritório
matter of fact
seu território

ao contrário
contraditório
instigar
não é de hoje
irrisório

reduzir amplitude em palavras
falatório

conduzir cavalos com amarras
dispensável

minha conquista
incalculável

assim, naturalmente

logo ali
bem depois
de onde se vê
aonde não se alcança

minha alma
magneticamente se encanta
recompensa tão aguardada

vindoura lembrança